Dossiê. Arquivos Restauradores: Disputas do Passado e Aberturas para o Futuro. Violência, Memórias e Práticas Arquivísticas na América Latina.
A chamada virada arquivística, entre as décadas de 1980 e 1990, não envolveu apenas uma mudança no conceito de arquivo para além do campo estritamente historiográfico/arquivístico, mas também uma expansão de seus usos, significados e materialidades para os âmbitos estético, artístico, performativo, antropológico e ontológico. O arquivo deixou de ser concebido exclusivamente como um repositório de documentos do passado, tornando-se, em vez disso, uma prática, um dispositivo e um campo de disputa epistemológica, política e emocional.
Na América Latina, essa virada foi profundamente moldada por contextos pós-autoritários e pós-conflito, bem como pelas lutas pela verdade, justiça e memória. Os arquivos — particularmente aqueles ligados à repressão estatal, à violência política e às experiências subalternas — adquiriram uma centralidade sem precedentes como ferramentas para romper silêncios, desafiar narrativas hegemônicas e inscrever temporalidades, subjetividades e memórias deslocadas. Simultaneamente, práticas documentais e arquivísticas comunitárias emergiram de baixo para cima, ligadas à defesa de direitos, à luta social e à produção da memória coletiva. Essas práticas conferiram aos arquivos poderes restauradores e críticos, implantando uma visão utópica em seus próprios processos.
Após uma longa jornada pelas lutas em torno dos arquivos, vale a pena perguntar onde nos encontramos hoje na América Latina. Quais trajetórias teóricas e práticas se mostraram produtivas e quais revelaram suas limitações? Como os contextos em que os arquivos — especialmente os subalternos, comunitários ou dissidentes — emergem, circulam e operam se transformaram? Quais novas demandas estão sendo impostas aos arquivos e quais demandas estão emergindo deles?
Em um momento marcado pela ascensão da extrema direita, pela reconfiguração geopolítica de uma ordem neocolonial e pelo ressurgimento de múltiplas formas de violência, essas questões adquirem uma urgência particular. Interrogar os arquivos, portanto, implica analisar como a violência está inscrita em suas classificações, nomenclaturas e taxonomias; O que revelam sobre os processos históricos e atuais de desapropriação e desapropriação; e como articulam continuidades e rupturas entre passados recentes e presentes contestados.
Ao mesmo tempo, este dossiê busca investigar criticamente até que ponto os arquivos restauram — ou podem restaurar — memórias e direitos, tanto para as comunidades diretamente envolvidas quanto para o presente em um sentido mais amplo, na medida em que ativam demandas do passado, futuros adiados e trajetórias históricas não realizadas.
Da mesma forma, busca refletir sobre as maneiras pelas quais os arquivos articulam sobrevivências, lembranças e fantasmas que não apenas deram sentido às resistências passadas, mas também continuam a moldar imaginários do futuro.
Objetivo Geral do Dossiê
Abrir um espaço para discussão coletiva, crítica e situada sobre as disputas em torno dos arquivos na América Latina, considerando as temporalidades, justaposições e anacronismos que os permeiam; os modos de memória e imaginação com os quais se articulam; as materialidades que evocam; e as configurações de sensibilidade, afetos e experiências que mobilizam.
Chamada para Submissões
Convidamos a submissão de trabalhos que desenvolvam discussões teóricas, metodológicas ou empíricas em torno de uma das seguintes áreas:
Práticas arquivísticas (incluindo arquivos comunitários, ativistas, artísticos, forenses e digitais)
Histórias a partir do arquivo e/ou histórias do arquivo (que problematizem suas condições de produção, circulação, uso e disputa)
Concepções críticas do arquivo (a partir de perspectivas historiográficas, filosóficas, antropológicas ou políticas).
As contribuições devem ser situadas dentro dos contextos geográficos e históricos da América Latina e abordar principalmente um dos seguintes períodos:
As décadas de 1960 e 1970, como um período de convergência entre intervenções imperialistas, terrorismo de Estado e a emergência do neoliberalismo.
As décadas de 1980 e 1990, caracterizadas pela expansão e consolidação dos mecanismos de desapropriação e exploração inerentes ao capitalismo neoliberal, bem como por processos de transição política e lutas pela memória histórica.
Experiências recentes ou em curso no âmbito das tendências abertamente reacionárias do neoliberalismo e do ressurgimento da violência neoextrativista, neocolonial, neo/pós-fascista e imperialista.
Escopo do dossiê
Este dossiê visa contribuir não apenas para a reflexão acadêmica sobre arquivos, mas também para conectá-los com questões latentes e potencialidades futuras. Nesse sentido, o arquivo é concebido como um espaço onde se inscrevem vestígios, imagens e afetos, permitindo-nos mapear o que ainda não aconteceu: futuros interrompidos, possibilidades truncadas e horizontes históricos ainda abertos.
Sugestões de temas para artigos do dossiê:
1. Práticas subalternas e ativistas de produção, uso e contestação arquivística diante da violência estatal, colonial, patriarcal e extrativista. Práticas de documentação e experiências arquivísticas a partir de perspectivas de baixo para cima, impulsionadas por comunidades, coletivos de vítimas, movimentos sociais, feministas, dissidentes de gênero e sexuais e povos indígenas, como formas de autodefesa, memória e produção da verdade.
2. Arquivos de repressão e disputas sobre o significado do passado recente. Análise de arquivos policiais, militares, de inteligência e judiciais em contextos pós-autoritários: silêncios, classificações, acesso restrito e usos políticos contemporâneos.
3. Materialidades do arquivo: vestígios, mídias e economias da documentação. Condições materiais de produção, circulação e uso de arquivos. Documentos, objetos, imagens, sons e corpos em contextos de violência e precariedade. Arquivos pós-custódia e táticas organizacionais em contextos de risco. Experiências com arquivos móveis, distribuídos ou efêmeros; práticas de preservação, descrição e classificação diante de ameaças de destruição ou apreensão.
4. Arquivo, restituição e comunidade: limites e possibilidades de reparação. Debates críticos sobre o arquivo como forma de restituição comunitária, reparação simbólica e reabertura de conflitos históricos e políticos.
5. O arquivo como conceito, metáfora e horizonte do futuro. Uma avaliação crítica da virada arquivística na América Latina; o arquivo como operador de latências, imaginação política, ativação de passados não resolvidos e projeção de futuros adiados.



