Ruínas urbanas como arquivos de violência. Infraestrutura, drenagem e violência territorial no Vale do México

Autores

DOI:

https://doi.org/10.64377/30087716.1429

Palavras-chave:

infraestrutura hidráulica, sistema de drenagem da Cidade do México, ruínas urbanas, arquivo, violência.

Resumo

Este artigo propõe uma leitura crítica das ruínas urbanas como arquivos materiais de violência territorial persistente. Baseado em uma etnografia realizada em bairros adjacentes ao Gran Canal de Desagüe (Grande Canal de Drenagem) no município de Ecatepec de Morelos, ao norte do Vale do México, e em uma revisão documental da infraestrutura hidráulica colonial e moderna, analisa como essas ruínas —não monumentalizadas—  permitem rastrear processos históricos de desapropriação, deslocamento e precariedade socioambiental. O texto se concentra no caso de “El Dique” (O Dique), um nó urbano onde remanescentes de comportas, canais e diques convergem com novas rodovias elevadas e outras infraestruturas mais recentes. Através duma jornada com a Isela, uma líder comunitária que resistiu ao despejo de sua casa, desdobra-se uma perspectiva situada sobre a paisagem urbana como um arquivo de violência. Esta pesquisa desafia a linguagem patrimonial do Estado que tende a monumentalizar o passado e omitir a violência que o produziu. Em vez disso, propõe-se considerar as ruínas como vestígios ativos que condensam temporalidades sobrepostas e disputas sobre a memória. Metodologicamente combina observação participante, entrevistas e uma revisão historiográfica de obras como o Gran Canal de Desagüe (Grande Canal de Drenagem), o albarradón de San Cristóbal (Calçada de San Cristóbal) e a Casa del Real Desagüe (Casa do Real Canal de Drenagem). Teoricamente dialoga com os estudos críticos do patrimônio, a antropologia da infraestrutura e os estudos pós-coloniais de ruínas (Stoler, Gordillo, Gnecco, Huyssen, Rufer) para propor uma leitura dissidente da urbanização periférica. O argumento central sustenta que essas ruínas não são vestígios passivos ou objetos nostálgicos, mas sim conjuntos materiais que nos permitem interpretar o presente como um tempo aberto, conflituoso e contestado. Assim, contribui para os estudos críticos do patrimônio e das ruínas em contextos urbanos marginalizados no Sul Global, mostrando como as ruínas do sistema de drenagem revelam a violência que, paradoxalmente, sustenta a promessa da modernidade.

 

Biografia do Autor

Ariana Mendoza-Fragoso, Instituto de Pesquisa Social Universidade Nacional Autônoma do México (IIS UNAM)

Pesquisadora Associada em tempo integral “C” no Instituto de Pesquisa Social da Universidade Nacional Autônoma do México. Doutora em Antropologia pelo Centro de Pesquisa e Estudos Superiores em Antropologia Social (CIESAS). Mestre em Gestão Sustentável de Recursos Hídricos pelo Colégio de San Luis (COLSAN) e graduada em Desenvolvimento e Gestão Intercultural pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Concluiu um pós-doutorado na Divisão de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), campus Cuajimalpa. Sua tese de doutorado recebeu o Prêmio Fray Bernardino de Sahagún de 2023, concedido pelo Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) na área de Antropologia Social. É membro do Sistema Nacional de Pesquisadores do Conselho Nacional de Ciências Humanas, Sociais e Culturais (CONAHCYT). Lecionou em cursos de graduação em diversas faculdades da UNAM, incluindo a Faculdade de Filosofia e Letras, a Faculdade de Ciências Políticas e Sociais e a Faculdade de Arquitetura. Em nível de pós-graduação, lecionou no Programa de Doutorado em Humanidades da UAM-Cuajimalpa, no Programa de Doutorado em Antropologia do CIESAS e nos programas de pós-graduação em Ciências da Sustentabilidade e Antropologia da UNAM. Participou de projetos de pesquisa e advocacy sobre água e restauração de sistemas socioecológicos no âmbito dos Programas Estratégicos Nacionais (PRONACES) da CONAHCYT. Atualmente, desenvolve o projeto “Fluxos de Água, Sedimentações de Violência: Infraestrutura e Drenagem como Dispositivos de Desigualdade no Norte do Vale do México”. Suas linhas de pesquisa incluem conflitos e problemas socioambientais, ecologia política, estudos sociais da água, território e territorialidades, história ambiental urbana, violência e meio ambiente, antropologia da infraestrutura, antropologia pós-humana e materialidades.

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Publicado

2026-01-31

Como Citar

Mendoza-Fragoso, A. (2026). Ruínas urbanas como arquivos de violência. Infraestrutura, drenagem e violência territorial no Vale do México. Memorias Disidentes. Revista De Estudios críticos Del Patrimonio, Archivos Y Memorias, 3(5), 145–166. https://doi.org/10.64377/30087716.1429