Sopros, latidos e sussurros: a preparaçȃo de cães de caça entre o povo Galibi Marworno

Autores

Palavras-chave:

cães de caça, familiarização de cachorros, memória indígena, povo Galibi Marworno

Resumo

A história do uso e incorporação de cachorros nas sociedades indígenas do presente é marcada por muitas controvérsias, desde uma presumida origem pré-colombiana, encontrada em documentos de navegadores de época que coincidem com narrativas indígenas, até a hipótese de não existência de cães domesticados em posse de caçadores ameríndios, antes que se estabelecessem redes de escambo que os permitissem adquiri-los dos colonizadores. Desta maneira, o presente artigo consiste na interlocução entre intelectuais indígenas e não indígenas, diante de memórias e narrativas sobre a origem e o desenvolvimento das relações entre humanos e cães no recôndito amazônico em que se reterritorializou o povo Galibi Marworno, da atual fronteira franco-brasileira, situada no município de Oiapoque/Amapá. Para tanto, recorre-se a práticas mnemônicas e pictográficas de pesquisadores ameríndios, que possibilitam o conhecimento, a documentação e a tradução do que pode ser considerada uma versão originária da inauguração da relação entre humanos e cães no Baixo rio Oiapoque. As técnicas, os sopros e os latidos oriundos da memória indígena são sobrepostos a outras camadas de experiência etnográfica, possibilitando um diálogo intercultural e pluriepistêmico que enseja uma versão etnicamente referenciada de parte da história ecológica e ambiental da Amazônia guianense.

Biografia do Autor

Ramiro Esdras Carneiro Batista, Universidade Federal do Amapá (UNIFAP)

Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Professor do quadro permanente da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), atuando com a formação de docentes no curso de Licenciatura Intercultural Indígena e pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Fronteira (PPGEF-UNIFAP). Possui experiência profissional em gestão, docência, ensino, pesquisa e extensão no âmbito da educação pública brasileira. Colabora em pesquisas relacionadas e edu¬cação escolar indígena; socioambientalismos e antropogenias no Caribe amazônico; literaturas, memórias e narrativas de caráter intercultural.

Claudiane de Menezes Gomes, Universidad Federal de Amapá (UNIFAP)

Doutora em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Professora na Universidade Federal do Amapá (UNIFAP-Campus Binacional do Oiapoque), no Curso de Licenciatura Intercultural Indígena, atuando principalmente nos seguintes temas: agroecologia, manejo da biodiversidade agrícola, gestão ambiental e territorial, educação ambiental, ecologia histórica, segurança e soberania alimentar.

Clébio Forte, Universidad Federal de Amapá (UNIFAP)

Graduando em Licenciatura Intercultural Indígena pela Universidade Federal do Amapá (CLII-UNIFAP). Pesquisador Galibi Marworno territorializado na ilha do Kumarumã (Terra Indígena Uaçá - Oiapoque/AP), no extremo setentrional da Amazônia brasileira. Colabora em pesquisas relacionadas a saberes tradicionais e educação escolar indígena.

Referências

Acosta, Alberto (2016). O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Autonomia Literária.

Barreto, Mauro Vieira (2016). Soldados, comerciantes, colonos e índios: a disputa europeia pela foz do Amazonas. Estudos Amazônicos.

Batista, Ramiro Esdras Carneiro (2023). De colonialismos e memórias sitiadas: história, antropofagia e tecnologia bélica nas guerras guianenses. [Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal do Pará, Belém]. https://repositorio.ufpa.br/items/db682848-0f51-4e79-9c30-bf9dc5e99aac

Batista, Ramiro Esdras Carneiro (2020). Keka Imawri: narrativas e códigos da guerra do fim do mundo. Comissão Mineira.

Cunha, Manuela Carneiro da. (2019). A contribuição da pesquisa sobre povos indígenas. Campos – Revista de Antropologia, 20(2), 26-36. https://doi.org/10.5380/cra.v20i2.71858

Chanda, Nayan (2011). Sem fronteira. Record.

Froment, Alain. (2003). Introduction. Survivre en forêt équatoriale. En Alain

Froment e Jean Guffroy (Eds.), Peuplements anciens et actuels des forêts tropicales (pp. 21-39). IRD Éditions. https://doi.org/10.4000/books.irdeditions.1486

Gaulme, François. (2003). Le manioc et son traitement. De l'Amérique à l'Afrique équatoriale: La diffusion de la farinha. En Alain Froment e Jean Guffroy (Eds.), Peuplements anciens et actuels des forêts tropicales (pp. 249-254). IRD Éditions. https://doi.org/10.4000/books. irdeditions.1486

Guffroy, Jean. (2003). Introduction. En Alain Froment e Jean Guffroy (Eds.), Peuplements anciens et actuels des forêts tropicales (pp. 43–44). IRD Éditions. https://doi.org/10.4000/books. irdeditions.1486

Labontê, Gesinei dos Santos (2018). Pewru-Ahavwukune: a incorporação do Canis familiaris na sociedade Palikur-Arukwayene. [Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, Licenciatura Intercultural Indígena, Universidade Federal do Amapá, Campus Oiapoque].

Labontê, Gesinei dos Santos, Sanchez, Gabriel, Batista, Ramiro Esdras Carneiro e Vander Velden, Felipe. (2021). Amansar, familiarizar, animalizar: técnicas para hacer perros cazadores en la Amazonía. Tabula Rasa, 40, 25-50. https://doi.org/10.25058/20112742.n40.02

Machado, Juliana Salles. (2006). Dos artefatos às aldeias: os vestígios arqueológicos no entendimento das formas de organização social da Amazônia. Revista de Antropologia, 49(2), 755-786. https://doi.org/10.1590/S0034-77012006000200009

Migeon, Gérald (2016). Homem e natureza: culturas arqueológicas na Guiana Francesa. Anais do Encontro Internacional de Arqueologia. Binacional do Oiapoque.

Neves, Eduardo Góes (2006). Arqueologia na Amazônia. Jorge Zahar.

Ramos, Claudiane de Menezes, Batista, Ramiro Esdras Carneiro, Iaparra e Azarias Ioio. (2023). “Mandioca dos índios”: narrativas e memórias das relações inauguradas entre humanos e plantas na fronteira Oiapoque (Amapá–Brasil). Revista de História da UEG, 12(2), e222313. https://doi.org/10.31668/revistaueg.v12i2.13827

Rivière, Peter (2001). O indivíduo e a sociedade na Guiana: um estudo comparativo sobre a organização social ameríndia. EDUSP.

Rostain, Stéphen. (2011). Que hay de nuevo al norte: apuntes sobre el ariste. Revista de Arqueologia, 24(1), 10-31. https://doi.org/10.24885/sab.v24i1.312

Saldanha, João Darcy de Moura e Cabral, Mariana Petry. (2014). A longa história indígena na costa norte do Amapá. Anuário Antropológico, 39(2), 99–114. https://doi.org/10.4000/aa.1261

Sarney, José e Costa, Pedro. (1999). Amapá: a terra onde o Brasil começa. Senado Federal, Conselho Editorial. https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/1034

Schaan, Denise Pahl (2007). Uma janela para a história pré-colonial da Amazônia: olhando além – e apesar – das fases e tradições. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi, 2(1), 77-89.

Segura, Valentina e Sánchez-Villagra, Marcelo. (2021). Human-canid relationship in the Americas: an examination of canid biological attributes and domestication. Mammalian Biology, 101(4), 387-406. https://doi.org/10.1007/s42991-021-00129-y

Sthal, Peter (2013). Early dogs and endemic South American canids of the Spanish Main. Journal of Anthropological Research, 69(4), 515-533. https://doi.org/10.3998/jar.0521004.0069.405

Tassinari, Antonella (2003). No bom da festa: o processo de construção cultural das famílias Karipuna do Amapá. EDUSP.

Todorov, Tzvetan (2003). A conquista da América: a questão do outro. Martins Fontes.

Vander Velden, Felipe (2018a). Joias da floresta: antropologia do tráfico de animais. EDUFSCAR.

Vander Velden, Felipe. (2018b). Os primeiros cachorros: encontros interétnicos e multiespecíficos no sudoeste da Amazônia. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 33(97), 1-23. https://10.1590/339713/2018

Vidal, Lux Boelitz (2001). Mito, história e cosmologia: as diferentes versões da guerra dos Palikur contra os Galibi entre os povos indígenas da Bacia do Uaçá, Oiapoque, Amapá. Revista de Antropologia, 44, 117-147. https://doi.org/10.1590/S0034-77012001000100004

Visigalli, Egle Barone e Sarge, Kristen. (2011). La Montagne d'Argent: Un site remarquable de Guyane (Ouanary). Ibis Rouge. https://search.worldcat.org/title/795444450

Wolf, Eric (2005). A Europa e os povos sem história. EDUSP

Publicado

2026-09-26

Como Citar

Carneiro Batista, R. E., de Menezes Gomes, C., & Forte, C. (2026). Sopros, latidos e sussurros: a preparaçȃo de cães de caça entre o povo Galibi Marworno. Memorias Disidentes. Revista De Estudios críticos Del Patrimonio, Archivos Y Memorias, 3(6), 179–196. Recuperado de https://ojs.unsj.edu.ar/index.php/Mdis/article/view/1456